quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Árvore secular


Vejo-me no vale das árvores seculares
Estou parado, pequeno em meio as copas
Que me fitam com a certeza de que vou passar
E passando adubarei seus pés,
Com as sobras de minha finitude
Vejo-me no vale das árvores seculares
E da minha pequenez meus olhos fecho
Sinto em minhas veias a seiva borbulhar
E sigo verdejando nesse devaneio
Esse desejo, essa inveja infame
De me perpetuar secularmente entre elas
Varar o céu com meus ramos verdes, pontiagudos
E me apossar dos primeiros beijos do sol
Eu do meu alto cume secular, eu
Pleno, etéreo, árvore, raízes na terra, cabeça no céu
Que bebo das gotas do orvalho e da neblina faço véu
Eu bela árvore, cujo vento me balança em valsa
Árvore de frondosa sombra
Com meu tronco marcado por juras de amor
Que suportei os entalhes dos corações enamorados
Que se partiram como galhos quebrados
Tatuagens das promessas feitas em vão
Vejo posar sobre meus braços passarinhos
Que entre meus dedos tecem os seus ninhos
Ao fim da tarde sobre meu colo pousam a descansar
Quando eu morrer não quero ir para o céu
Que me plantem embaixo da terra
E se alguém chorar em minha partida
Reguem-me as lágrimas da despedida
Para que eu brote como árvore secular

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Soneto do raiar do dia




Meu coração em tons de cinza
Monocromático peito
Pálido e rarefeito
Mesmo cansado segue ainda

Perturbando o silêncio da noite
Com minha insônia arregalada
Devaneios que me ferem qual açoite
Prolongando a aflição da madrugada

Náufrago em meio a correnteza
Do mar da vida essa incerteza
Me afogo sobre a cama desforrada

Já não há nada e a escuridão me bebe
Que venha o dia e sua luz entregue
O sol raiando e a esperança revelada.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ampulheta



Senta e chora o pranto
Derrama-o em qualquer canto
Faz verter teu desencanto
Chora tudo, um pouco mais e tanto.

Senta e chora o pranto
Que do teu choro se faz o canto
Que te valha lá em cima um santo
E te console seu sagrado manto

Senta e chora o pranto
Pois foi-se o tempo da tua mocidade
Onde sorvias os bens da tenra idade

Abraça-te esta senhora,  maturidade
Que enruga e mastiga tua vivacidade
Senta e chora o pranto


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Ausência



Foi inútil o pranto derramado, em noites de agonia inesgotável
Inconfessável a dor, atada ao coração crispado
 Foi inútil o pranto derramado, sobras de um amor tão inefável
Lágrima indesejável, molhando meu peito empoeirado

Teu silêncio a ferir o meu ouvido, a outros não se faz audível
Segue batendo impassível, teu pobre coração envaidecido
Duro, inerte,empedernido, morrendo em um peito inabalável
Cai o pranto inevitável, sobre um copo de café e um pão dormido

A mesa posta com o pé partido, eterna espera de uma voz que clama
Uma carta, um telegrama, o tempo congelado e sem sentido
Sufoco meu grito reprimido, no silêncio embotado do pijama

Sento ao pé da cama, com meu olhar perdido
Mesmo no peito aturdido, se faz valer a chama
É alento do iludido lutar pelo que ama.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Espere pelo meu amor




Esse amor puro, inconfessável
Prisioneiro amordaçado ao peito
Amar-te assim será defeito?
Como pode ser impuro o inefável?

Não se explica nem se sabe como é feito
O amor essa fera indomável
Da minh´alma faz-se a cerne e o preceito
Aturdindo a minha fé inabalável

E desvairado sigo do meu jeito
Se te vejo o ar se torna rarefeito
São meus olhos aos seus olhos respirar

Tudo em você encerra o desejo perfeito
Ao ver-te ao longe sonhando me deleito
E espero o tempo certo para te amar.


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

A puta



O copo a frente e o som que aqui se escuta
Senta-se ao meu lado sem ser convidada a puta
Envenena-me os ouvidos, qual um trago de sicuta
Obrigado e passar bem, siga com a sua luta
 
Me concentro no liquido a minha frente
E abstraio dissolvendo toda a gente
Menos ela em sua insistência absoluta
Tenta seduzir-me ferozmente a puta
 
No fundo dos seus olhos o desespero revelado
Da dignidade perdida em um trocado
Se faz mister resistir em sua labuta
 
Quase cedo não fosse o cheiro exalado
De mil homens em seu corpo empreguinado
Quem acha essa vida fácil, nunca precisou ser puta

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sobras de mim





Envolto em silêncio e apatia
Sou apenas vácuo do que já fui um dia
Sepultado no que já não existe mais
Sou barco a vela amarrado ao cais

Sorriso pálido, desbotado e absorto
No espelho já não enxergo um rosto
Escuto gritos de loucura e agonia
Ecos do que outrora em mim morria

Hoje perambulo entre a sorte e a revelia
Desprovido de afeto e alegria
Navegante vendo o mar e preso ao porto

No prenúncio do fim, um alento, um conforto
De poder enterrar-se enfim o morto
Libertar a alma juntar-se a ventania.

Soneto fúnebre de um egoísta




Abraça-te enfim a morte
Terror de todo vivente
Certeza única que encerra a sorte
Nivelando toda essa gente

Jazendo sob sete palmos
O cessar de toda ambição
Sobre a cabeça lêem-se os salmos
No mármore do derradeiro chão

Nada levou do vil metal acumulado
Nem ele, nem que jaz ali ao lado.
Só um terno barato como companhia

Compadeço-me desse pobre coitado
O epitáfio o resume na lápide fria
“Partiu sem deixar saudades, aquele que não dividia”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Viagem



Na véspera da tua partida fez-se o nada

Silêncio que violenta a calma

Impiedosa transpassa a espada

E fere mortalmente a alma



Prenúncios alardeados da jornada

Da tua viagem que é só de ida

Escorre por entre as mãos a vida

Some no horizonte a mulher amada



Restam pegadas, o chão, o pó

Vicissitude que se desfez

Sufoca-me a garganta o nó



Num estalo de loucura e Insensatez

Penso vê-la mais uma vez

É saudade, o regalo ofertado ao só

Eu não vim para ficar


Eu coleciono nuvens

Onde os homens ajuntam moedas

Eu não vim para ficar

Estou apenas de passagem



Sou um farol para os loucos

Que ainda vêem rosas no asfalto

Que são feitos de sonho

E recheados de ausência



Semente que não passa da promessa

Não cria raízes, frutos jamais vai dar

Estou apenas de passagem

Eu não vim pra ficar



No fundo dos meus olhos castanhos

Uma sombria expressão secular

Dos caminhos que não conheci

Das terras que não vou pisar



Teus caminhos sempre exatos

Destoam da arritmia dos meus passos

E a tua pisada objetiva

Fere meu ébrio caminhar



Diferimos na feitura da matéria

Eu de substância etérea

Você da que se pode contar



Se sabes que não pertenço ao seu mundo

Por quê me aprisionar?

Já falei que estou de passagem

Do seu lado não vou ficar

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Tormenta



Com velas desajustadas sigo

Por entre tormentas navego

Nas sobras da fé me apego

Cego e alheio ao perigo



Não vejo nem um palmo a frente

Perdido em meio a tanta gente

Entre lobos caminho inocente

Sou cordeiro morrendo docemente



Como um Cristo pregado na cruz

Um ingênuo adentrando um cabaré

Muito menino, pouco Jesus

Se faz mister ficar em pé.



Onde poucos estendem a mão

Onde o sim sucumbiu ao não

Onde morre insepulto meu coração.

Terra infértil, mundo cão

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Vestido de flor






Vestido de flor não vejo mais
Nem tão pouco a fita no cabelo
Doçura de um suave desapego
De uma ternura que ficou para trás.
Da pureza que foi perdida
Numa cama de um quarto qualquer
Virastes um dia mulher
Sem se quer ter sido menina.
Seguem perdidas rosas cálidas
Inebriadas em noites sem fim
Olhos turvos, faces pálidas
Manchadas de pecado e carmim.
Na boca as sobras, o amargor, o gosto ruim
De quem vaga a procura de amor
Despida sem seu vestido de flor.

Sorriso de menina




De certo apenas o vácuo 
Vazio preenchendo tudo
Me pego calado e mudo
Perdido junto ao teu retrato

Teu sorriso esmaecendo
Amarelando no papel 
Vai sumindo da memória
Lembranças daquele céu

Havia estrelas ainda lembro
Resta ainda uma certa brancura
Lutando contra vácuo, iluminando a amargura

De viver sempre a espera 
De um clarão que a tudo ilumina
E ver você voltando com teu sorriso de menina

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Asas




Te dou asas sei
Apenas para que voe
A distância que não escape aos olhos
Voa no céu da minha boca
Esse infinito
Plana no relevo do meu peito
Que encobre o que te aquece
 E pulsa
Flutua no meu mundo
Circunda os limites do meu corpo
Seja meu satélite
Minha lua gravitando ao redor
Nesse meu desejo louco e egoísta
De que eu nunca me torne menor
Para que não fujas às minhas fronteiras
Que meu espaço seja infinito aos teus olhos
Meu relevo interminável às tuas asas
E quando finito perceberes que sou
Que nunca percas o encanto
De me visitares mesmo a tudo tendo conhecido
E do seu vôo se faça percebido
Que mudo sempre para que não canses da viagem.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Por quê?




Para quê tantos por quês ?

Se não há respostas para tudo

Às vezes me pego mudo

Sem saber dos tantos porquês



Por que viver?

Por que amar?

Por que morrer?



Já não quero saber os porquês

Se não tenho respostas para tudo

Prefiro permanecer mudo

Escolho simplesmente viver.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Asas




Cálida lembrança
escapando pelo canto da memória
morna, quente, doce
inundando os pensamentos
momentos de tanto amor
e essa cor esmaecida pelo tempo
me traz alento saber que existiu
aquilo que outrora me fez sonhar
bato asas rumo ao infinito
buscando um céu, um tempo mais bonito
consolo de quem fica é poder sonhar.