quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Árvore secular
Vejo-me no vale das árvores seculares
Estou parado, pequeno em meio as copas
Que me fitam com a certeza de que vou passar
E passando adubarei seus pés,
Com as sobras de minha finitude
Vejo-me no vale das árvores seculares
E da minha pequenez meus olhos fecho
Sinto em minhas veias a seiva borbulhar
E sigo verdejando nesse devaneio
Esse desejo, essa inveja infame
De me perpetuar secularmente entre elas
Varar o céu com meus ramos verdes, pontiagudos
E me apossar dos primeiros beijos do sol
Eu do meu alto cume secular, eu
Pleno, etéreo, árvore, raízes na terra, cabeça no céu
Que bebo das gotas do orvalho e da neblina faço véu
Eu bela árvore, cujo vento me balança em valsa
Árvore de frondosa sombra
Com meu tronco marcado por juras de amor
Que suportei os entalhes dos corações enamorados
Que se partiram como galhos quebrados
Tatuagens das promessas feitas em vão
Vejo posar sobre meus braços passarinhos
Que entre meus dedos tecem os seus ninhos
Ao fim da tarde sobre meu colo pousam a descansar
Quando eu morrer não quero ir para o céu
Que me plantem embaixo da terra
E se alguém chorar em minha partida
Reguem-me as lágrimas da despedida
Para que eu brote como árvore secular
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Soneto do raiar do dia
Meu coração em tons de cinza
Monocromático peito
Pálido e rarefeito
Mesmo cansado segue ainda
Perturbando o silêncio da noite
Com minha insônia arregalada
Devaneios que me ferem qual açoite
Prolongando a aflição da madrugada
Náufrago em meio a correnteza
Do mar da vida essa incerteza
Me afogo sobre a cama desforrada
Já não há nada e a escuridão me bebe
Que venha o dia e sua luz entregue
O sol raiando e a esperança revelada.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Ampulheta
Senta e chora o pranto
Derrama-o em qualquer canto
Faz verter teu desencanto
Chora tudo, um pouco mais e tanto.
Senta e chora o pranto
Que do teu choro se faz o canto
Que te valha lá em cima um santo
E te console seu sagrado manto
Senta e chora o pranto
Pois foi-se o tempo da tua mocidade
Onde sorvias os bens da tenra idade
Abraça-te esta senhora, maturidade
Que enruga e mastiga tua vivacidade
Senta e chora o pranto
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Ausência
Foi inútil o pranto derramado, em noites de agonia inesgotável
Inconfessável a dor, atada ao coração crispado
Foi inútil o pranto derramado, sobras de um amor tão inefável
Lágrima indesejável, molhando meu peito empoeirado
Teu silêncio a ferir o meu ouvido, a outros não se faz audível
Segue batendo impassível, teu pobre coração envaidecido
Duro, inerte,empedernido, morrendo em um peito inabalável
Cai o pranto inevitável, sobre um copo de café e um pão dormido
A mesa posta com o pé partido, eterna espera de uma voz que clama
Uma carta, um telegrama, o tempo congelado e sem sentido
Sufoco meu grito reprimido, no silêncio embotado do pijama
Sento ao pé da cama, com meu olhar perdido
Mesmo no peito aturdido, se faz valer a chama
É alento do iludido lutar pelo que ama.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Espere pelo meu amor
Esse amor puro, inconfessável
Prisioneiro amordaçado ao peito
Amar-te assim será defeito?
Como pode ser impuro o inefável?
Não se explica nem se sabe como é feito
O amor essa fera indomável
Da minh´alma faz-se a cerne e o preceito
Aturdindo a minha fé inabalável
E desvairado sigo do meu jeito
Se te vejo o ar se torna rarefeito
São meus olhos aos seus olhos respirar
Tudo em você encerra o desejo perfeito
Ao ver-te ao longe sonhando me deleito
E espero o tempo certo para te amar.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
A puta
O copo a frente e o som que aqui se escuta
Senta-se ao meu lado sem ser convidada a puta
Envenena-me os ouvidos, qual um trago de sicuta
Obrigado e passar bem, siga com a sua luta
Me concentro no liquido a minha frente
E abstraio dissolvendo toda a gente
Menos ela em sua insistência absoluta
Tenta seduzir-me ferozmente a puta
No fundo dos seus olhos o desespero revelado
Da dignidade perdida em um trocado
Se faz mister resistir em sua labuta
Quase cedo não fosse o cheiro exalado
De mil homens em seu corpo empreguinado
Quem acha essa vida fácil, nunca precisou ser puta
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Sobras de mim
Envolto em silêncio e apatia
Sou apenas vácuo do que já fui um dia
Sepultado no que já não existe mais
Sou barco a vela amarrado ao cais
Sorriso pálido, desbotado e absorto
No espelho já não enxergo um rosto
Escuto gritos de loucura e agonia
Ecos do que outrora em mim morria
Hoje perambulo entre a sorte e a revelia
Desprovido de afeto e alegria
Navegante vendo o mar e preso ao porto
No prenúncio do fim, um alento, um conforto
De poder enterrar-se enfim o morto
Libertar a alma juntar-se a ventania.
Soneto fúnebre de um egoísta
Abraça-te enfim a morte
Terror de todo vivente
Certeza única que encerra a sorte
Nivelando toda essa gente
Jazendo sob sete palmos
O cessar de toda ambição
Sobre a cabeça lêem-se os salmos
No mármore do derradeiro chão
Nada levou do vil metal acumulado
Nem ele, nem que jaz ali ao lado.
Só um terno barato como companhia
Compadeço-me desse pobre coitado
O epitáfio o resume na lápide fria
“Partiu sem deixar saudades, aquele que não dividia”.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Viagem
Na véspera da tua partida fez-se o nada
Silêncio que violenta a calma
Impiedosa transpassa a espada
E fere mortalmente a alma
Prenúncios alardeados da jornada
Da tua viagem que é só de ida
Escorre por entre as mãos a vida
Some no horizonte a mulher amada
Restam pegadas, o chão, o pó
Vicissitude que se desfez
Sufoca-me a garganta o nó
Num estalo de loucura e Insensatez
Penso vê-la mais uma vez
É saudade, o regalo ofertado ao só
Eu não vim para ficar
Eu coleciono nuvens
Onde os homens ajuntam moedas
Eu não vim para ficar
Estou apenas de passagem
Sou um farol para os loucos
Que ainda vêem rosas no asfalto
Que são feitos de sonho
E recheados de ausência
Semente que não passa da promessa
Não cria raízes, frutos jamais vai dar
Estou apenas de passagem
Eu não vim pra ficar
No fundo dos meus olhos castanhos
Uma sombria expressão secular
Dos caminhos que não conheci
Das terras que não vou pisar
Teus caminhos sempre exatos
Destoam da arritmia dos meus passos
E a tua pisada objetiva
Fere meu ébrio caminhar
Diferimos na feitura da matéria
Eu de substância etérea
Você da que se pode contar
Se sabes que não pertenço ao seu mundo
Por quê me aprisionar?
Já falei que estou de passagem
Do seu lado não vou ficar
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Tormenta
Com velas desajustadas sigo
Por entre tormentas navego
Nas sobras da fé me apego
Cego e alheio ao perigo
Não vejo nem um palmo a frente
Perdido em meio a tanta gente
Entre lobos caminho inocente
Sou cordeiro morrendo docemente
Como um Cristo pregado na cruz
Um ingênuo adentrando um cabaré
Muito menino, pouco Jesus
Se faz mister ficar em pé.
Onde poucos estendem a mão
Onde o sim sucumbiu ao não
Onde morre insepulto meu coração.
Terra infértil, mundo cão
terça-feira, 16 de agosto de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
Vestido de flor
Vestido de flor não vejo mais
Nem tão pouco a fita no cabelo
Doçura de um suave desapego
De uma ternura que ficou para trás.
Da pureza que foi perdida
Numa cama de um quarto qualquer
Virastes um dia mulher
Sem se quer ter sido menina.
Seguem perdidas rosas cálidas
Inebriadas em noites sem fim
Olhos turvos, faces pálidas
Manchadas de pecado e carmim.
Manchadas de pecado e carmim.
Na boca as sobras, o amargor, o gosto ruim
De quem vaga a procura de amor
Despida sem seu vestido de flor.
Sorriso de menina
De certo apenas o vácuo
Vazio preenchendo tudo
Me pego calado e mudo
Perdido junto ao teu retrato
Teu sorriso esmaecendo
Amarelando no papel
Vai sumindo da memória
Lembranças daquele céu
Havia estrelas ainda lembro
Resta ainda uma certa brancura
Lutando contra vácuo, iluminando a amargura
De viver sempre a espera
De um clarão que a tudo ilumina
E ver você voltando com teu sorriso de menina
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Asas
Te dou asas sei
Apenas para que voe
A distância que não escape aos olhos
Voa no céu da minha boca
Esse infinito
Plana no relevo do meu peito
Que encobre o que te aquece
E pulsa
Flutua no meu mundo
Circunda os limites do meu corpo
Seja meu satélite
Minha lua gravitando ao redor
Nesse meu desejo louco e egoísta
De que eu nunca me torne menor
Para que não fujas às minhas fronteiras
Que meu espaço seja infinito aos teus olhos
Meu relevo interminável às tuas asas
E quando finito perceberes que sou
Que nunca percas o encanto
De me visitares mesmo a tudo tendo conhecido
E do seu vôo se faça percebido
Que mudo sempre para que não canses da viagem.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Por quê?
Para quê tantos por quês ?
Se não há respostas para tudo
Às vezes me pego mudo
Sem saber dos tantos porquês
Por que viver?
Por que amar?
Por que morrer?
Já não quero saber os porquês
Se não tenho respostas para tudo
Prefiro permanecer mudo
Escolho simplesmente viver.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Asas
Cálida lembrança
escapando pelo canto da memória
morna, quente, doce
inundando os pensamentos
momentos de tanto amor
e essa cor esmaecida pelo tempo
me traz alento saber que existiu
aquilo que outrora me fez sonhar
bato asas rumo ao infinito
buscando um céu, um tempo mais bonito
consolo de quem fica é poder sonhar.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Over my shoulder...
Esse peso que se fez de repente
Cortante e incomodo sobre os ombros
Vou demolindo os muros à frente
Amontoam-se sobre mim os escombros
Espólios das tantas lutas da vida
Que não cansam nem cessam de chegar
Se faz mister suportar a lida
Dobra-se o lombo sem se deixar quebrar
E pacato sigo sereno buscando não me abalar
Sem que agitem-me pequenas coisas
Bastam-me as grandes a me pesar
Deram-me ao nascer costas largas
Como que prevendo a carga futura
Te carrego sorrindo vida, por mais que sejas dura.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
Um verso para um coração que berra.
Eu tenho um coração que berra
Que bate apesar do mundo
Empurrando a vida liquefeita entre as vêias
Berra por nada, grita por tudo
Nunca se engana, apenas erra
E errando nunca se cala, berra
Berra por mim, por você
Pelo que já foi e pelo que há de ser
Pelo que já viu e o que nunca há de ver
Grita a tua ausência, pede o teu prazer
Clama a tua presença, sente o teu querer
Vela o teu sono, pulsa em teu viver
Que berre em meu peito enquanto eu viver
Que faça escândalo, grite, salte, que não pare
Que não cesse a voz antes de eu morrer
Que me acorde sempre aos berros
Me chamando pra viver.
domingo, 23 de maio de 2010
Morena
Sento em frente ao mar
E me rendo à imensidão
Lanço um olhar ao seu limiar
E rogo a ele em oração
Que se renove meu caminhar
Que haja sempre nova canção
Dessas que fazem homem chorar
Por um amor, ou por seu torrão
Espumas brancas, ondas quebrar
São como nuvens que tocam o chão
Lambem areia, respigam o ar
Fazem do céu um grande borrão
É minha morena a rabiscar
Volta pra casa meu coração
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Intimidade
Ver-te andar com tanto zelo
Deslizando nua em pelo
Por todo quarto, desmazelo
Boca, seios, ancas, cabelo
És toda minha e já não temo
Poder tocar-te é dom supremo
Minha boca seca, calor extremo
Ferve meu corpo, eu ardo e queimo
Vens vindo sem pudor
Próprio de quem íntimo é
Das noites vividas em furor
Sobre os lençóis és revoltosa maré
Me abraças com teu fogo abrasador
Me olhas com teus olhos de mulher.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Aonde fomos parar?
Ficou esse gosto amargo
Metal entre os dentes
Fel no céu da boca
Ríspida a anunciada partida
O sapo ferve lento sem perceber
Fingi não acreditar
Nos prenúncios a tanto anunciados
Sempre achando que haveria tempo
Tempo é um luxo que não temos
Breve, o que é bom se finda
Como brigadeiro na colher de pau
Como no fim da pipoca, o sal
E assim de súbito a muito sabido
Fiquei eu aqui iludido
Acreditando no cessar do mal
Me abraço ao tempo perdido
Lembranças que não voltam mais
Fico preso a este cais
Esperando aportar tua nau
Andamos na mesma cidade
Nos mesmos lugares
Nos já não temos a mesma idade
Nem respiramos os mesmos ares
Como estranhos trocamos olhares
Incertos sobre o que se passa
Nos pensamentos um do outro
Seguimos estranhos e alheios
À vida de quem já foi um dia
O motivo de tanta alegria
Na vida um do outro
Onde foi para o amor?
As juras?
As ternuras?
Os agrados?
Os beijos?
Os abraços?
O toque?
A pele?
O meu amor?
O seu amor?
Aonde fomos parar?
Talvez não tenha havido
Nem sequer existido
Como os restos de uma civilização perdida
Que nunca foi achada
Quem nos vê nunca dirá
Nem sequer pode imaginar
O casal que já fomos um dia
Hoje tudo é medo
Insegurança
Apatia
Confesso tenho saudades
Daquilo que já fomos um dia
segunda-feira, 1 de março de 2010
Leito
Na impossibilidade da concretização dos afetos
Restam sonetos febris, calorosos e macios
Lugares onde a alma se aconchega e dorme
Esse é o colchao do poeta
Recheado com as etéreas plumas da paixão.
A paz que eu desejo
Tudo em você é suavidade
Do teu silêncio ao teu caminhar
Do teu sorriso ao teu olhar
Flutuas na tua brevidade
Teu universo sob teu dominar
Nada escapa da tua gravidade
A não ser essa temeridade
Da tua fragilidade a se revelar
Doce e morna é tua presença
Leve brisa a soprar no mar
Renovando do meu peito o ar
Tudo em ti inspira o amar
Nos teus finos cabelos quero me enredar
Me perder de amor e nunca mais me achar
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Sigo...
Resta-me o som do mundo
E todas as coisas ao meu redor
Resta-me um desejo profundo
De que tudo se torne melhor
Sobram-me motivos e razões
Para acreditar sempre na vida
Embora haja ocasiões
Em que se deseje mais a partida
Meu rosto essa terra fértil
Onde brotam risadas e lástimas
Meu corpo inconstante e febril
Regado a suores e lágrimas
Forte é esse gosto metálico
Que paira no céu da boca
É vácuo do teu beijo cálido
Ausência da tua língua louca
E sigo em frente sem olhar pra traz
Com meu saco de sorrisos e histórias
Instantes tatuados na memória
De um homem em busca de paz.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Tempo

Dessa aspereza que nos tolhe
O que me sufoca e me encolhe
É o tempo e sua pressa
De me atropelar sempre que paro
Mesmo ferido procurando amparo
A sua engrenagem nunca cessa
Anda preso sempre ao meu braço
Nesse impiedoso compasso
Sem remorso não volta atrás
Se corre muito apresso o passo
Se lento anda é descompasso
Confiro a pilha não tenho paz
E escravo sigo nesse viver
Desesperado sempre a correr
Contra algo que não posso vencer
Não pude cultivar as flores
Nem sorver a plenitude dos amores
Que a vida em sua finitude me ofereceu
Dirão de mim "Esse coitado
Que viveu sempre apressado
Agora jaz aqui enterrado
Mais um que o tempo venceu".
Mais um que o tempo venceu".
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Memórias
Às vezes penso nas coisas
Que podiam ter sido e não foram,
Perderam-se em algum lugar escondido
Somente na memória e no coração ficaram
Quietas em seus lugares, imóveis, empoeiradas
Às vezes as visito, tiro o pó
Às vezes me pego sorrindo, outras me vejo só
Momentos que queria ressuscitar
Trazer de volta a vida
Fechar a ferida
Poder tocar
Essa traquitana de lembranças
Amontoadas no meu pensar
Trazem-me a esperança
De novas memórias ganhar
Espero as mais felizes
Mas sei das cicatrizes
Que a vida há de deixar.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Caleidoscópio
Tenho todas as cores em mim
O branco da paz que não encontrei
O azul do céu que nunca toquei
O verde esperança que jamais tem fim
No amarelo do medo a me embotar assim
No vermelho do sangue me apavorei
No preto véu da noite, cego tateei
No rosa da tua carne descansei enfim
Todas as nuances desse etéreo arco
No balançar das tuas ancas feitas de giz
A deslizar no meu leito, doce meretriz
Entre tuas coxas vou fincar meu marco
Arder em suores, calores febris
Vou pintar o sete, te fazer feliz.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Segredos de mulher.
Não perguntes nunca do passado
Da mulher se não queres sofrer
Natural da companheira esconder
As aventuras da sua vida para o amado
Passado perfeito, limpo e ilibado
É a imagem que se quer vender
Pelo simples medo de perder
O novo amor que agora se tem ao lado
Histórias toda fêmea tem
Umas mais puras outras nem tanto
Contos de alcova que não convém
Mas não te julgo e nem a ninguém
Se te escondes detrás do manto
É pra não veres partir o teu bem.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Sair da margem, mergulhar em mim.
Cansei de viver a margem de mim
Observar de fora o acontecimento
Expectador da vida, do seu movimento
Essa ausência, essa coisa ruim
Não quero mais viver assim
Estar de fora, esse afastamento
Sob o olhar do outro, esse julgamento
Quero a liberdade, respirar enfim
Rédeas da vida, ter na minha mão
Dominar meu sim, disparar meu não
Caminhar na serra, flutuar no mar
Beijar a menina, mergulhar no ar
Eu dentro de mim, minha habitação
Abraçar minh´alma, ver meu coração.
domingo, 20 de setembro de 2009
É mais forte do que eu.
Como um zunido constante, uma abelha
Escuto essa voz que não cala
Uma chama, uma brasa, centelha
É papel e caneta e tudo me abala
Ecoam os pingos da chuva na telha
Me ponho louco a caminhar na sala
Traga-me vinho, solução vermelha
Limpando a mente, clareando a fala
Essa secura de escrever não cessa
Mesmo que eu cansado, pare, ore, peça
Mesmo que cesse o clamor da alma
Nada que eu faça há que impeça
Dê-me uma folha, saia e se despeça
Se não escrevo, nada mais me acalma.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Gato pingado???
Não conheci Fulano
Nem Cicrano
Nem o Zé ninguém
Esse Gato pingado
Essa Alma penada
Beltrano? Eu heim
É tanta pouca gente
Quando se quer falar
Que tanta gente não tem
É tanta gente sem rosto
Sem pé, nem cabeça, sem gosto
Sem nexo tanta gente vem
Habitar os lugares vazios
Das festas e dos bailes sombrios
Ausência de tanto alguém
Acredito em alma penada
Fulano e cicrano
Beltrano? Acredito também
Mas o que danado é gato pingado?
E se pinga, pinga em cima de quem?
E se existe onde diabo tem?
Amor de menino.
Parece estranho esse desatino
Esse sonho a me seguir
Será real ou quer me iludir?
Isso que me habita desde menino
Esse brilho a me conduzir
Radiante qual um sol matutino
A tua voz som do cristalino
Canta a sereia a me seduzir
Te quis desde a mais tenra idade
Com doçura nunca com maldade
Um abraço apenas, esse teu calor
Crescemos eu e tu e essa temeridade
De te ver partir e só restar saudade
E eu ficar menino sem o seu amor
Soneto do breve encontro.
Luz para meu peito
Foi conhecer-te aquele dia
Andar ao teu lado, admirar teu jeito
Guardar em mim a tua geografia
Eu que de desilusão era feito
Mergulhado em minha apatia
Escutei num compasso perfeito
Meu coração saltar de alegria
E segui a caminhar teus passos
Ditando um resumo de nossas vidas
Buscando estabelecer os laços
Conexões antes das despedidas
Sonhando em tê-la em meus braços
Evitando as tuas partidas
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Amor Errante
O teu silêncio é o que me mata
Antes uma briga, um escarro, a desavença
A sentir na carne essa afiada indiferença
Essa tirana a me manter sob a chibata
Já não conheço a tua posição exata
Nenhum bilhete ou uma carta a indicar tua presença
Me restam o silêncio, essa reza, essa crença
De que o sofrer já não me fortalece, mata
Vagas por tantas camas, tantos braços
Inebriada em mil amassos
Em busca da perfeição
Corre que o tempo arma os seus laços
E dentro em breve em poucos passos
Verás que foi tudo em vão.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Ainda resta amor em mim
Ainda resta amor no meu peito
Grande, quente e forte
Jorrando e escorrendo liqüefeito
Vermelho te sinalizando o norte
Vem sorver o que é teu por direito
Que sem tua boca não há quem conforte
Mas vem com cuidado, carinho e jeito
Pois se derramas uma gota é a própria morte
Vem se entrega, sucumbe ao meu apelo
Corre, anda, pega logo essa estrada
Montada em seu cavalo, galopando nua em pelo
Salta, se joga, se abriga no meu zelo
Ave errante e machucada
Pousa logo, vem vivê-lo
Uma lua apenas
Reluziu em mim, a saltar a tua imagem
Quando fitei teu sorriso branco
Meu corpo a saltar num impulso, solavanco
Olhos felinos e o pelo amarelo, miragem
Antecipei em sonhos essa viagem
De ver arfar teu alvo flanco
Alegre e farto como um saltimbanco
Pelas estações da vida sem bagagem
Teu visgo doce, calda quente a me queimar
Quando enfim toquei teu rosto, provei teu gosto
Já não me cabia mais outra coisa, a não ser te desejar
Foi uma noite apenas, extasiado a te ver dançar
Meu olhar aflito, a buscar teu rosto
No afã de reter tua imagem, tua beleza eternizar
Soneto passarinho
Cala a minha boca com um beijo
Com desdém e formalidade
Tu que me consumiste na mais tenra idade
Hoje me olhas com frieza e com desleixo
Vivo do teu lado desse jeito
Catando migalhas dessa caridade
Louco é o meu viver nessa disparidade
Suores de terror alagam o meu leito
Aí de mim por mostrar o quanto podia amar
Dissecando e expondo tudo que havia em mim
Fitam-me teus olhos de madeira, sem se apiedar
Esse amor soturno, esse sofrido penar
Quisera ser pardal, prosaica ave, fugir assim
Sacudir minhas asas loucas, no etéreo azul do ar.
Últimos passos
Senta já vai chegar tua hora
A fronte baixa a vista turva
A pele frágil a junta dura
Não há nada mais que se faça agora
Não se vê mais o meu rosto
Foi todo tomado, exposto
Profundos sulcos e largas rugas
Avenidas do desgosto
Meu sorriso se foi com meu marfim
Meus pés se arrastam no corredor
Meu caminhar somente dor
É a cortina que se fecha, caindo sobre mim
São tantas datas me lembro sim
São tantas velas que já não cabem na torta
Que haja muitas então, a alumiar meu fim
Em volta do caixão, ladeando minha face morta
Esse peso de tudo que se viveu
Me encurva sempre em direção a terra
Esse firmamento que o triste fim encerra
Receba mais um filho teu
Para a sogra com amor
Não sou do tipo que a sogra gosta
Tenho um filho sem ter casado
“Minha filha tome cuidado, produção independente”
Não fui orador da turma de noventa e cinco
Não sou funcionário público
“Minha filha tome cuidado, não parece boa gente”
Não fiquei rico, nem virei senador
Vivo na corda bamba, nem sequer um assessor
“Minha filha tome cuidado, vai morar com um indigente?”
Há minha sogra querida
Um dia caso com tua filha
E vamos todos morar na ilha, do famoso governador
Lá no morro do batente
Te hospedo no quarto lá da frente
Que numa chuva de repente
É o primeiro a ir na enchente
Vai pra o diabo que te carregue
Velha chata, impertinente.
Velha chata, impertinente.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Variações sobre o mesmo tema
E tenho dito
Esse tema constante
Como pode o poeta fazer poesia
Sem que no peito bata um coração errante?
terça-feira, 8 de setembro de 2009
A casa é sua.

Fui marcado a ferro em brasa
Quando te deixei invadir a minha casa
E fazer dela a tua morada
Ficastes a vontade como quem já conhecia
Bagunçastes a sala, revirastes a cozinha
Mudastes tudo de lugar e a casa já não me pertencia
Em toda brecha o teu cheiro
Em todo espelho a tua imagem
Saístes como quem foge ligeiro
Ligeiro que até esquece a bagagem
O quarto órfão do teu calor
A cozinha sem teu tempero, sem sabor
O Banheiro sem tuas ancas, sem odor
A minha vida sem a tua, sem amor.
Fábio Viégas 8 de Setembro de 2009
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